A Terapia Tântrica Enquanto Ferramenta De Restabelecimento Da Sexualidade Estruturante Da Identidade Saudável Do Sujeito

Artigo escrito para a Pós-Graduação em Sexualidade Humana e Terapêutica Tântrica do ATMAN Consciência & Tantra em parceria com a Faculdade JK (com adaptações).

Por Clarissa Reis

Para início deste trabalho, é necessário compreender a importância da sexualidade na saúde dos seres humanos. Ainda precisaremos de muitas gerações de estudiosos sobre o tema para que a sexualidade seja tomada a sério pela ciência oficial. Vale começar citando um dos principais estudiosos sobre o tema, o psicanalista Wilhelm Reich, para quem a saúde psíquica tem relação íntima com a potência orgástica e com o exercício pleno da sexualidade – isto é, com a capacidade de entrega e de vivência do clímax da excitação no ato sexual natural (REICH, 1979). 

Reich acredita que a vivência sexual satisfatória está baseada no caráter não neurótico da capacidade de amar do indivíduo. Ele afirma também, que as doenças psíquicas resultam de uma perturbação na capacidade natural de amar. Para ele, o fator básico para curar tais perturbações, ou neuroses, está no restabelecimento da disponibilidade biológica de amar. 

Outro autor, Rolando Toro, criador do Sistema de Desenvolvimento Humano da Biodanza (abordagem teórica-metodológica-vivencial), que desenvolveu um rico trabalho corporal composto de cinco linhas de vivência – vitalidade, sexualidade, criatividade, afetividade e transcendência –, está seguro de que a condição natural do organismo é a de sentir desejo sexual e prazer  (TORO, 2005). Os objetivos principais da Biodanza são despertar o desejo pela vida e experimentar o corpo como fonte de prazer, desenvolvendo intimidade consigo mesmo, com o outro e com toda a natureza. 

A literatura médica e terapêutica existentes até o momento corroboram a grande importância da sexualidade e do prazer como pilares da saúde psíquica do indivíduo (FOUCAULT, 1990; FREUD, 1972; LOWEN, 1970;  MONTAGU, 1988; REICH, 1979; TORO, 2005).

A civilização ocidental moderna tem submetido psiquicamente o ser humano à interiorização e à naturalização da mecanização da vida (Lysebeth, 1994). Esse modelo traz à superfície as fixações psíquicas de uma cultura normativa, mecanizada, autoritária e desagregada da natureza. 

Chamo esse processo de desintegração com a natureza de “cultura anti-vida”, pela qual a civilização industrial e o capitalismo exterminam a vida – os campos, os rios, as florestas – e se sobrepõe o ambiente artificial: prédios, vidros, máquinas, energia elétrica. “A natureza desapareceu” (LYSEBETH, 1994). Esquecemos de que somos a natureza em ação, de que somos animais, então nos apartamos dos nossos instintos, das nossas funções originárias enquanto espécie humana, e terminamos por corromper nosso instinto sexual, o qual garante a preservação da vida da espécie.  

Incorremos em duas dinâmicas de adoecimento psíquico-neurotizantes: um discurso puritano e moralista, que torna a sexualidade algo pecaminoso, e, no outro extremo, a vulgaridade e banalização da sexualidade. Retiramos da sexualidade seu aspecto natural, e, portanto, adoecemos a nossa sexualidade. 

Toda essa desconexão com a nossa natureza levou a humanidade a atravessar um longo período de repressão sexual, que se atualiza, ainda hoje, com níveis de elevada sofisticação através de um “discurso” de liberdade sexual (REICH, 1976). Rolando Toro (2017) nos alerta para o fato de que muitas pessoas confundem liberdade sexual com o consumo do sexo e relações eróticas múltiplas, enquanto, para ele, a verdadeira liberdade sexual é mais profunda e fundante para a saúde do sujeito, pois, compromete a totalidade do ser e, portanto, a manifestação de sua identidade. 

Por identidade, podemos entender o conjunto de características psicobiológicas que tornam o indivíduo único, diferente e inconfundível. Em cada célula do sujeito está a sua identidade. No nível psicológico, trata-se da capacidade de percepção de si mesmo e do mundo, que permite o desvelamento do indivíduo em diferenciação (individualidade) e integração – fusão com a vida (GÓIS, 1995). 

Tanto para se permitir experiências de pequenos, como de grandes prazeres, há que se ter um forte sentido de identidade diante de uma cultura opressora, que notícia de forma epidêmica o sofrimento, a violência e uma cultura anti-vida. Viver o prazer requer do indivíduo lucidez sensível suficiente para identificar, na sociedade, um grau significativo de comportamentos destrutivos. Na verdade, preservar a identidade saudável, nesse contexto, é um grandioso ato de reivindicação pela vida em liberdade, criatividade, prazer e amor. 

Assim, o conceito de identidade, para fins deste trabalho, relaciona-se ao restabelecimento da conexão com o prazer de viver, que vai desde pequenos prazeres como tomar sol, beber água fresca, pisar o pé na terra, conversar com amigos, receber uma massagem, alimentar-se, experimentar uma textura agradável à pele, até as experiências de êxtase, entrega total e fusão orgástica. 

Para o psicanalista Alexander Lowen (1970), com prazer e alegria de viver, a vida se torna uma aventura criativa. Sem prazer, é uma luta pela sobrevivência desprovida de sentido existencial, o que resulta, tantas vezes, em neuroses de angústia, vivência depressiva, ansiedade, neurose obsessiva compulsiva, neurose histérica, e psicossomatizações sexuais, como frigidez, falta de libido, impotência sexual, ejaculação precoce, dispareunia, vaginismo.

A terapêutica tântrica

O resgate da sexualidade plena, saudável e consciente requer a busca de novas concepções acerca do corpo e do prazer: eis onde a terapêutica tântrica revela seu valor. Com essa terapêutica, podemos ressignificar a existência vivida no corpo e rever suas necessidades em seu potencial auto-regulador e curativo. O corpo é o território central da terapêutica tântrica. 

Para o tantra, o corpo não é uma carcaça, nem a antítese do espírito – aquele que devemos tratar com austeridade e mortificar para salvar a alma -, senão o seu contrário: é um maravilhoso instrumento, dotado da mais alta tecnologia biológica, e é a sede da consciência (LYSEBETH, 1994).

A terapia tântrica é uma ruptura com o sistema dominante que nega e demoniza o corpo – o que, por si só, já é terapêutico. Há muitos séculos, a ideia de corpo tem sido associada à dor, à doença e à culpa. No tantra, o corpo é veículo para o despertar do prazer e do autoconhecimento, que são estruturantes da saúde e possibilitam a vivência integradora da identidade humana.

Todo o corpo é um potencial de erotismo. Nosso órgão mais sensível é a pele, que nos reveste por inteiro. Para o despertar do prazer em todo o prolongamento da superfície da pele, utiliza-se, na terapia tântrica com massagem, a técnica denominada “sensitive”: uma massagem com toque sutil, através das pontas dos dedos, que tem por intuito o despertar da bioeletricidade de todo o corpo. 

Estas descargas bioenergéticas ativam diversos processos psíquicos e biológicos: a sensorialidade; maior sensibilidade; a construção de novas sinapses nervosas; o despertar de memórias traumáticas e suas ressignificações; o despertar de memórias de alegria; insights; elaborações psíquicas; vivência de unidade corporal; aceitação ao toque e ao próprio corpo; auto-percepção; cura de disfunções sexuais; o despertar do desejo e da energia sexual; e a capacidade auto-reguladora do corpo em expressão de homeostase e cura.

O ato de ser acariciado suscita uma resposta natural, nos seres humanos, para o pleno desenvolvimento orgânico-emocional. Não pode haver saúde, nem o funcionamento pleno do organismo, se os sistemas vivos não mantiverem contatos frequentes. Desse modo, podemos também nos dar conta do quanto a sexualidade fixada nas genitálias empobrece a nossa experiência do contato íntimo de toda a pele, que é nossa maior zona erógena (MONTAGU, 1988).

Contudo, não incluir as genitálias ou qualquer outra área do corpo, na experiência sexual provoca fragmentação corporal e, portanto, também no nível da identidade individual. Surge uma sensação de ressentimento da parte do corpo que não é tocada, e o indivíduo experimenta um corte no corpo, uma vivência esquizofrênica, uma censura e a impossibilidade de se viver o corpo em sua inteireza. Por esse motivo, na terapêutica tântrica da massagem é previsto o toque nas genitálias, com o mesmo princípio da massagem “sensitive”, mediante o pedido de quem recebe. Nesse contexto, o toque é experimentado dentro de um ambiente terapêutico protegido, em uma relação de vínculo de confiança com o terapeuta, que deve tocar todo o corpo, em uma atitude de reverência. 

 CONCLUSÃO

Reich (1979, apud Dillon, 2013)  conclui, após décadas de estudos e observação clínica, que o comportamento adoecido e neurótico surge da incapacidade de o sujeito descarregar totalmente a energia (através do orgasmo) que se acumula no corpo e viver uma sexualidade plena. Segundo esse autor, a neurose  – e eu acrescentaria, algumas estruturas psíquicas dissociativas, como as psicoses, e outras formas de adoecimento psicossomático – são produto de energia instintiva reprimida que busca uma via para ser liberada.

Como a massagem tântrica permite essa descarga, não é incomum ouvirmos de pacientes relatos de que diminuíram ou eliminaram sintomas neuróticos, dissociativos e psicossomáticos e passaram a sentir alegria de viver e reconexão com o corpo. 

A identidade do sujeito evolui por afinidade ao movimento do toque sensível, que legitima a existência expressiva de um ser tocado por outro ser (na figura do terapeuta), em uma atmosfera de confiança e intimidade. A ferramenta clínica da massagem tântrica é um instrumento potente, que ajuda a recuperar a vivência corporal prazerosa, possibilitando experiência integradora da identidade do sujeito. 

Em uma sociedade em que a sexualidade foi corrompida por repressões, tabus, violências e abusos sexuais, gerando neuroses e dissociações psíquicas coletivas, a terapêutica tântrica toma como seu instrumento de trabalho a sexualidade consciente, resgatando a vivência corporal prazerosa, natural ao ser humano que desfruta de saúde psíquica. Acolher a sexualidade humana no sentido terapêutico é resgatar a capacidade nata de o organismo expressar saúde através de seus potenciais de prazer e amor.

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