Os Aspectos Da Sexualidade Madura

Artigo escrito para a Pós-Graduação em Sexualidade Humana e Terapêutica Tântrica do ATMAN Consciência & Tantra em parceria com a Faculdade JK (com adaptações).

Por Leandro Scapelato Cruz

Mais de um século após grandes repressões sexuais vitorianas, nós hoje experimentamos uma liberdade sexual que, àquela época, as pessoas jamais poderiam imaginar. Essa suposta liberdade, contudo, não significa felicidade sexual. Seja nos consultórios de terapias convencionais ou não, o número de pessoas com problemas ou questões relacionados à sexualidade continua alto, o que nos leva ao seguinte questionamento: nossa sexualidade hoje é madura e saudável, completamente livre dos dilemas morais repressores dos séculos anteriores, ou nós apenas temos uma ilusão de liberdade sexual, com imaturidade e repressões morais menos claras que à época vitoriana? O que seria uma sexualidade madura, e como poderíamos transformar o que temos hoje nela?

Para o desenvolvimento deste estudo sobre sexualidade madura, foram realizadas buscas de literatura com base em três obras: A Função do Orgasmo (1975), do psicanalista austríaco Wlhelm Reich, Amor e Orgasmo (1988), do psicanalista americano Alexander Lowen, e Do Sexo à Supraconsciência (1993), do guru tântrico indiano Osho. 

  1. NÃO HÁ COMO REPRIMIR O QUE NOS É NATURAL

Rajneesh Chandra Mohan Jain, conhecido mundialmente como Osho, em seus trabalhos sobre o Tantra, passou grande parte da sua vida falando sobre as questões da sexualidade, principalmente sobre o que fizemos com ela no ocidente. Em sua obra “Do Sexo à Supraconsciência” (OSHO, 1993), ele afirma que passamos milhares de anos tentando nos livrar do sexo, ao tempo em que não podemos nos livrar do que nos é natural, sob pena de sermos dominados pela força que tentamos bloquear. Para reforçar sua teoria, ele se baseia na “Lei do Efeito Inverso”, teoria do psicólogo francês Émile Coué, em sua obra “O domínio de si mesmo através da autossugestão consciente” (COUÉ, 1926), que defende que acabamos por colidir com tudo aquilo que tentamos negar, pois o objeto do nosso medo torna-se o centro de nossa consciência. Para Osho, como resultado disso, o sexo está em todos os cantos e de todas as formas no mundo hoje. “A Lei do Efeito Inverso capturou a alma do homem” (OSHO, 1993, p. 50).

Reich, em seu estudo sobre as neuroses do homem moderno, faz uma ligação entre os impulsos sexuais reprimidos e as neuroses sofridas por seus pacientes, afirmando que o homem é a única espécie biológica que destruiu a sua função sexual natural e que, em consequência disso, encontra-se doente (REICH, 1975).

  1. A FALSA SEXUALIDADE MADURA

Lowen (1988) toma como referencial de repressão sexual a época vitoriana e diz que, mesmo décadas após sairmos dela, o que apresentamos hoje ainda é muita confusão sexual, apesar da experiência e da liberdade experimentadas. Segundo o autor, essa confusão é vista diariamente por profissionais da área, mostrando, assim, que a liberdade não forma a maturidade da sexualidade. O homem médio continua mergulhado em ignorância e desinformação sobre o tema, caindo na infelicidade sexual.

No século passado, o homem tentou compensar a repressão histórica com uma teórica liberdade total em relação ao sexo. Nesse processo, o moralismo existente anteriormente dentro da sexualidade não foi resolvido, mas apenas moldado e limitado ao campo emocional. O sexo passou a ser permitido, mas de forma dissociada do amor, o que acabou por afastar os sentimentos do ato sexual em si, transformando-o em algo dominado por técnicas, posições variadas, teorias e desejos, mas sem emoção.

“[…] O ato sexual é um desempenho se for usado mais para impressionar o próprio parceiro do que para expressar algum sentimento próprio. O ato sexual é um desempenho se a satisfação do outro for de importância maior que a própria satisfação. É um desempenho se os valores do ego forem mais importantes do que as sensações, sentimentos e vivência. […]” (LOWEN, 1988, p. 13)

A perturbação da capacidade natural de amar, por sua vez, resulta nas patologias psíquicas do homem (REICH, 1975) quando, dentro dessa nova moralidade, os sentimentos naturais são confundidos com pornografia (REICH, 1975).

“Se uma pessoa encontra obstáculos intransponíveis nos seus esforços para experimentar o amor ou a satisfação das exigências sexuais, começa a odiar. Mas o ódio não pode ser expresso. Deve ser refreado para evitar a angústia que causa. Em suma, o amor contrariado causa angústia. Igualmente, a agressão inibida causa angústia; e a angústia inibe as exigências do ódio e do amor” (REICH, 1990, p. 131).

Nós podemos, a partir das lógicas expressas, definir a criação dessa falsa maturidade sexual da seguinte maneira: durante milênios, os homens tentaram arduamente reprimir a sexualidade. A culpa se tornou estrutura principal de toda a cultura sexual ocidental, onde as doutrinas cristãs administravam rigidamente o íntimo das pessoas. Porém, a repressão não destruiu, mas sim fortaleceu uma sexualidade distorcida. O homem é atraído pelo que tenta afastar e, por isso, acabou por transformar em centro da consciência o que tentava banir de sua existência. Dessa maneira, o sexo tomou os sonhos e os pensamentos, sejam racionais ou irracionais. 

A partir da tentativa de compensação das repressões sexuais do passado, o homem passou, então, a alimentar a necessidade de se libertar sexualmente, mas, tomado pela distorção criada ao ser dominado pelo que tentava reprimir, erroneamente acabou por anular os sentimentos do ato sexual. Assim, o que deveria ser uma expressão natural de amor passou a ser um ato moldado pelos desejos do ego, incapaz de suprir as sua necessidades emocionais.

Toda essa “liberdade” sexual, com suas limitações emocionais, transformou o sexo em pornografia e passou a alimentar as angústias humanas, em vez de aliviá-las. 

  1. SEXUALIDADE MADURA

Reich, Lowen e Osho coincidem quando afirmam que existe uma necessidade de transformar, e não controlar, os impulsos sexuais. Essa transformação não diz respeito apenas à liberdade de se praticar o ato sexual em si, mas sim em fazê-lo com a reinserção do amor e da entrega na sexualidade. Só a partir dessa recombinação de sexo e amor é que o homem alcançaria a almejada maturidade sexual.

Para que essa transformação seja possível, o sexo deve deixar de ser visto como desempenho. Enquanto isso não acontecer, não haverá espaço para a manifestação de sentimentos pela pessoa com quem se pratica tal ato (LOWEN, 1988).

Osho afirma que, “O sexo é a energia mais vibrante do homem, mas não deve ser um fim em si mesmo: o sexo deve levar o homem à sua alma. A meta é ir da luxúria à luz” (OSHO, 1993, p. 66). 

Lowen fala que “há uma grande necessidade de se compreender a sexualidade como uma expressão emocional” (LOWEN, 1988, p. 10).

4.1. Sexo e amor

Lowen é categórico ao ressaltar várias vezes a ligação entre o sexo e o amor. Para ele, “não há possibilidade de sexo sem amor” (LOWEN, 1988, p. 25). Ele afirma que só o amor pode impelir alguém a se aproximar, tanto espiritual, quanto fisicamente, da outra pessoa, e essa seria a essência do sexo maduro.

Osho não se distancia de Lowen na teoria descrita. Com suas particularidades, ele afirma que o sexo não deve ser sequer abordado quando o indivíduo está tomado por sentimentos negativos, como ódio, angústia, tristeza, indignação, preocupações. Ele salienta que, na atualidade, quanto mais tomado por esses sentimentos, mais o indivíduo, desesperado e atormentado, se move  em direção ao sexo – o que, inclusive, para ele, impossibilita que haja satisfação sexual (OSHO, 1993).

Os dois autores concordam que a satisfação sexual só pode existir quando o sexo é feito em um ambiente de amor, tanto  por si próprio como pela pessoa com quem se pratica o ato sexual.

4.2. Alcançar a sexualidade madura

Reich afirma que apenas a liberação da capacidade natural do homem para o amor é que pode vencer a sua tendência sádica e destrutiva (REICH, 1975).

Na visão de Osho, para que se alcance o que ele chama de samadhi (a supraconsciência espiritual, ou a maturidade do ser, também conhecida como estado de meditação completa), o homem precisa entender que o sexo é o primeiro passo, que deve ser aceito e trabalhado no amor e na conexão, ressaltando que esse passo não é um fim em si mesmo. “O sexo é só o começo” (OSHO, 1993, p. 111).

Para Lowen, a sexualidade madura só é possível quando o homem lida e se cura de neuroses que interferem na sua sexualidade (LOWEN, 1988, p. 30-38). As perturbações psicológicas e emocionais, com suas carências, são ferramentas de cisão entre o amor e o sexo e, por isso, devem ser abordadas terapeuticamente. Além disso, ele afirma que a equívoca separação entre corpo e mente, em que a última é dotada de um valor maior que aquela, deve ser revista.

Ainda segundo Lowen, o ato sexual é uma doação em si mesmo (LOWEN, 1988) e deve assim ser entendido para que a entrega seja aceita. Não há sexualidade madura sem entrega total em relação ao parceiro com quem se pratica o ato sexual. Não há satisfação, pois ela só pode ocorrer quando o coração está ligado ao genital, fazendo do ato sexual um ato de amor completo. Segundo Lowen, “Se a felicidade sexual é relativamente rara em nossa cultura, é porque as pessoas perderam a capacidade de se darem completamente umas às outras […]” (LOWEN, 1988, p. 37).

  1.  CONCLUSÃO

A sexualidade madura nada tem a ver com a quantidade ou com a técnica que se usa no ato sexual. Ela não tem a ver apenas com o que se deseja instintivamente. Não tem a ver com as carências que alimentam nossas perturbações emocionais. Não tem a ver com a valorização maior da mente sobre o corpo e vice-versa. E, por fim, não tem a ver com análise de desempenho.

A sexualidade madura tem a ver com sentimento. Com o amor através do qual nos conectamos com o outro. Com ser saudável emocionalmente, ser capaz de se entregar, de se amar e de amar ao outro. Para se tornar capaz de tudo isso, o homem deve, muitas vezes com ajuda de ferramentas terapêuticas e de profissionais, entender, trabalhar e, finalmente, dissolver as barreiras que o impede de chegar nesse lugar de conexão e amor.

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