Toque Terapêutico E Transcendência

Artigo escrito para a Pós-Graduação em Sexualidade Humana e Terapêutica Tântrica do ATMAN Consciência & Tantra em parceria com a Faculdade JK (com adaptações).

Por Vidya Moreira (vidyamoreira.blogspot.com)

Segundo Ashley Montagu, antropólogo norte-americano e autor do livro Tocar, o significado humano da pele (MONTAGU, 1988), a pele é o maior órgão humano em extensão, sendo o tecido que primeiramente se forma na fase embrionária, e também o mais sensível. 

A pele possui função excretora, protetora, imunológica, termorreguladora e sensorial, tendo conexão direta com o sistema nervoso central, começa a constituir respostas adaptativas ao mundo externo após o nascimento e renova-se continuamente durante toda a vida, formando uma nova camada de células a cada quatro horas. É ela que informa ao nosso corpo sobre as condições do mundo exterior, permitindo que este direcione o seu comportamento para a autopreservação. É possível afirmar que é na pele que fica marcada a nossa história.

Seu sentido primordial, o tato, permanece uma constante durante toda a vida, tendo sido o primeiro a se tornar funcional em todas as espécies. Ele pode se referir a uma variedade de experiências, envolvendo elementos como pressão, dor, prazer, temperatura, movimentos musculares, fricção. 

O sentido do tato também possui uma dimensão aprendida, um componente mental decorrente da experiência espacial. “Nossa percepção do mundo visual, por exemplo, mescla o que já sentimos em associações passadas com o que já vimos ou com a cena à nossa frente” (MONTAGU, 1988, p.31). Além disso, tem alto valor simbólico e representativo na nossa estrutura social, sendo incorporado inclusive em diferentes expressões de linguagem (“dar um toque”, “toque feminino”, entre outras tantas).

Como afirma o filósofo inglês Bertrand Russell (1925), somos primeiramente a nossa pele, pois é a partir dela que começamos a nos reconhecer como sujeitos no mundo – sendo o toque o sentido que nos confere a sensação de realidade. 

Os indivíduos que não são tocados ao nascer encontram dificuldades em todos os aspectos do seu desenvolvimento humano, pois, é a estimulação da pele que desencadeia o tônus motor (MONTAGU, 1988). A importância do toque tem efeito direto sobre a saúde física e mental,  implicando a sua falta em dificuldades biossociais e psicológicas. 

Apesar de sua importância, Montagu (1998) afirma que a pele ainda é território relativamente inexplorado na ciência. A maior parte do conhecimento que se tem hoje sobre as funções da pele surgiu por volta dos anos 40, e somente nos anos 70 que pesquisas nesse campo voltaram a ser publicadas. Na opinião do autor, esse fato é surpreendente, pois “não pode haver saúde nem o funcionamento pleno se os sistemas vivos não estiverem ou não mantiverem contatos frequentes.” (MONTAGU, 1998, p. 26)

Nesse contexto, este artigo tem por objetivo discutir a importância do toque no desenvolvimento humano e a utilização do uso de massagens terapêuticas alternativas, notadamente a massagem tântrica Sensitive, no transporte de indivíduos para um estado diferenciado de consciência, aqui chamado de transcendência. 

O conceito de transcendência refere-se ao momento em que o ser alcança um estado de contemplação e expansão emocional, física e mental “onde se ultrapassam as aparências das coisas e onde o homem se ultrapassa a si mesmo” (FERREIRA, 2008, p.28), sendo “o caminho que permite alcançar, de alguma forma, aquilo que está fora dos limites impostos por uma materialidade ou situação” (CRUZ JUNIOR, 2014, p.87).  

Na prática, no estado de transcendência induzido pelas terapias, o indivíduo sente um bem-estar integral, o aumento de sua consciência e sensibilidade corporal, a sensação de pertencimento e auto-aceitação, entrando em contato direto com suas emoções positivas primárias e reconhecendo a beleza em si e no mundo. 

O TOQUE E O DESENVOLVIMENTO HUMANO

Diferentemente de outras espécies, os seres humanos nascem em um estado de imaturidade, incapazes de sobreviver sem cuidados físicos. Montagu afirma (1988) que, em observações antropológicas sobre mamíferos, evidencia-se o contato materno pela estimulação de sistemas orgânicos, nos atos de lamber seus filhotes, abrigá-los em segurança por meio do abraço, amamentá-los. 

As pesquisas experimentais conduzidas por Montagu (1988) e Spitz (1965) descrevem os efeitos das privações do toque tanto em animais mamíferos quanto em seres humanos, e concluem que o toque é uma necessidade comportamental básica que deve se perpetuar por toda a vida.

Segundo Montagu (1988), no século XIX mais de metade dos bebês vinha à óbito durante o primeiro ano de vida por uma doença que era conhecida como marasmo, sob a qual os bebês definhavam e morriam sem que se conseguisse identificar o problema específicos. 

Em algumas instituições de assistência à infância nos Estados Unidos, esse número chegava a 100%, ao que chamou a atenção dos pediatras da época, uma vez que os cuidados objetivos de higiene e alimentação eram suficientemente realizados. Curiosamente, o mesmo fato ocorria também em ambientes familiares esterilizados dos bebês de classe alta. 

Nesse contexto, descobriu-se que bebês em regime de externato, cuidados por pessoas amorosas, teriam a redução desses números, assim como acontecia com bebês que recebiam atenção direta da própria mãe, ainda que mais pobres. Assim, o Hospital Bellevue, de Nova York, adotou um regime de assistência maternal no qual as crianças deveriam receber cuidados “de mãe”, sendo embaladas e aconchegadas diariamente. Com a nova rotina, os índices de mortalidade para bebês com menos de 1 ano caíram de 30-35% para menos de 10%, em 1938.

Spitz (1965), médico e psicanalista vienense especializado em psicologia infantil,   relata ter observado 170 bebês por um período de um ano e meio. Desse total, acompanhou as mudanças ocorridas em um grupo de 34 bebês que, depois de um período mínimo de 6 meses de boas relações com suas mães, foram privados da sua companhia por um período mais ou menos longo com uma substituta satisfatória. Todos os bebês passaram a apresentar alterações comportamentais e clínicas que se intensificavam em função da duração da separação, mas que encontraram uma rápida recuperação quando, após um período de no máximo cinco meses, a mãe reaparecia ou era encontrada uma substituta adequada. Spitz entendeu esse transtorno como decorrente de uma privação afetiva parcial ao qual deu o nome de depressão anaclítica.

Em outro estudo relatado pelo autor (Spitz, 1965), foram observados, durante dois anos, 91 bebês que tinham sido amamentados pelas suas mães nos primeiros três meses e que, durante esse período, não haviam apresentado alterações comportamentais ou no desenvolvimento. Após o desmame, esses bebês foram entregues aos cuidados de amas em um orfanato, onde cada funcionária cuidava de um grupo com mais de dez crianças. Nesse formato, cada bebê recebia uma parcela muito pequena de provisões afetivas do tipo materno. Assim que separados das mães, os bebês passaram rapidamente pelas fases descritas no quadro da depressão anaclítica, apresentando um acentuado atraso motor logo de início, total passividade e com o rosto vazio de expressão, chegando a manifestar espasmos de dedos e de cabeça semelhantes aos de portadores de danos cerebrais.

A contribuição de Spitz (1965) e Montagu (1988) permitiu a compreensão de que a satisfação exclusiva das necessidades biológicas e dos cuidados materiais não são suficientes para garantir a sobrevivência do bebê, e que a carência ou privação de cuidados afetivos podem produzir graves danos à saúde física e psíquica da criança, podendo eventualmente ocasionar a sua morte.

O TOQUE NA ABORDAGEM TERAPÊUTICA

O toque como carícia é uma ação integrada que envolve movimentos afetivo-motores e/ou afetivo-eróticos, em relação de empatia e retroalimentação com o outro. Com o reconhecimento da importância do corpo e da expressão do desejo, explicitados na teoria freudiana no início do séc. XX, e com o advento das terapias corporais, iniciadas por Wilhelm Reich no mesmo período, diversas terapias focadas na exploração do toque e da ampliação do sentido por meio do tato, em busca de um estado sensorial de transcendência, foram constituídas através dos anos. 

Rolando Toro, o fundador da Biodanza, afirma que a falta de carícias produz sérias distorções da imagem corporal, pois a nossa relação com o corpo está condicionada pelo contato com o outro. A “função do contato” seria terapêutica na medida em que o contato corporal, e, em especial, a carícia, ativaria, mobilizaria, transformaria e reforçaria o continente natural da nossa identidade: a pele. 

A pele seria a percepção desse limite corporal, o nosso ancoramento no mundo físico, ao mesmo tempo que é um instrumento para que possamos transcender por meio das sensações internas despertadas por ela. Ao negarmos esse contato pelo toque, como é feito em tantas culturas (MONTAGU, 1988), estaríamos criando uma identidade dissociada e desintegrada. Os participantes dessa linha terapêutica defendem que vivemos nossa corporeidade quando acariciamos e somos acariciados. 

Alexander Lowen (1984), discípulo de Wilhelm Reich (1979), criou a terapia corporal “bioenergética” para flexibilizar/desbloquear as diferentes couraças do corpo que impedem o indivíduo de ter uma livre circulação energética, sentir prazer e viver uma vida plena. Couraças surgem como proteção daquilo que para o indivíduo é muito difícil ver, sentir e processar, e se apresentam como bloqueios emocionais, musculares e energéticos que se manifestam no plano físico. 

Desfazer essas couraças passa necessariamente por essa reconexão com o corpo, que, no caso da bioenergética, é feito por técnicas respiratórias, exercícios vigorosos e técnicas de autopercepção dos sentidos. O efeito dessa desconstrução traz alívio e relaxamento para o indivíduo, deixando-o vulnerável e disponível para atingir novos patamares de autoconsciência e transcendência.

MASSAGEM SENSITIVE E TRANSCENDÊNCIA

Como dito anteriormente, o conceito de transcendência refere-se a um estado de contemplação e expansão “onde se ultrapassam as aparências das coisas e onde o homem se ultrapassa a si mesmo” (FERREIRA, 2008, p.28), sendo “caminho que permite alcançar, de alguma forma, aquilo que está fora dos limites impostos por uma materialidade ou situação” (CRUZ JUNIOR, 2014, p.87). 

Essa condição pode ser atingida por meio de uma experiência religiosa, mas não somente. Indivíduos buscam a transcendência por caminhos de renúncia e de fartura, pela literatura, arte, contemplação, esporte, prazer físico, uso de substâncias psicotrópicas, comunhão com a natureza e com outros homens, entre tantas outras possibilidades. Transcendência é um conceito que exprime uma relação com algo que está para além do mundo natural, passando também pelo corpo físico.

Neste artigo, tratamos a transcendência como uma experiência corporal, quando o estado de relaxamento e entrega do corpo permite a dissolução das couraças e leva o indivíduo a uma conexão maior consigo mesmo.

Entre as diversas abordagens corporais existentes, este artigo optou por descrever e destacar a “massagem Sensitive” (REDE METAMORFOSE, 2019b) pelo seu potencial de transcendência pelo toque sutil. O método foi criado por Deva Nishok (Rede Metamorfose, 2019c), no Brasil, e é utilizado como o primeiro de quatro níveis de massagem oferecidos na linha do neo-tantra. 

De acordo com o criador da técnica, o objetivo da massagem Sensitive é que a bioeletricidade do corpo (REDE METAMORFOSE, 2019a) seja despertada, possibilitando que a energia circule e que as sensações de prazer e orgasmos se espalhem por todo o corpo, levando o indivíduo para um estado de transcendência.

Segundo Nishok (REDE METAMORFOSE, 2019b), a Sensitive aumenta os níveis hormonais de endorfina, serotonina e ocitocina, encadeando diversos agrupamentos musculares na reação reflexo-neurológica do prazer e do orgasmo, elevando o humor e a sensação de plenitude e alegria dos pacientes. Chegando a esse estado de transcendência, eles são capazes de experienciar a sensação de amor expandido, por si mesmos e pelo mundo, transformando suas relações.

A técnica em si é simples: toques longos e suaves com a ponta dos dedos em todo o corpo nu do paciente, com músicas que induzem ao relaxamento. A massagem é longa, para aprofundar o processo, e não-simétrica, para evitar que o cérebro do paciente tente manter o controle e “adivinhar” o que está por vir. O objetivo é maximizar a experiência sensorial para que se alcance o equilíbrio bioelétrico, a dissolução de couraças, a consequente liberação de conteúdos inconscientes e a transcendência. 

Os relatos de pacientes que recebem essa massagem incluem ondas de prazer e calor e reações emocionais intensas, como choro e outras expressões verbais. Relatam também diversos insights sobre seus corpos, vidas e relações, além de reações físicas como espasmos, orgasmos secos, ejaculatórios e múltiplos. Finalmente, descrevem um estado de transcendência, ou seja, de profundo relaxamento e bem-estar, de conexão com o próprio corpo, de auto-reconhecimento. Os pacientes relatam que, após as sessões de massagem Sensitive, sentem-se mais completos e abertos para o mundo e o prazer, mais sensíveis e perceptivos.

É possível relacionar essa técnica com as duas mencionadas anteriormente, a Biodanza e a Bioenergética. As carícias, principais ferramentas da Biodanza, são feitas na massagem Sensitive a fim de trabalhar a capacidade de entrega do paciente, agindo diretamente sobre as emoções e o psiquismo. A dissolução de couraças, objetivo primordial da Bioenergética, também é atingida na Sensitive pelo equilíbrio energético e o acolhimento afetivo, dissolvendo ansiedades e tensões. Todas as técnicas levam a um estado de transcendência, mais ou menos profundo, ainda que por caminhos diferentes.

A falta de toque, tendência cada vez mais comum no mundo, acaba por influenciar negativamente o desenvolvimento físico, mental e emocional dos indivíduos, bloqueando sua energia vital e sua capacidade de sentir prazer, e gerando uma sociedade progressivamente mais triste e doente. Ainda que a escolha de uma terapia seja absolutamente pessoal, e que seus resultados dependam de uma série de questões multifatoriais, não havendo qualquer garantia de sucesso, é essencial que as terapias corporais “de toque” sejam registradas, difundidas e experimentadas. 

Nesse contexto, experiências terapêuticas integradoras que induzam ao estado de transcendência são cada vez mais importantes, pois doenças psíquicas são condições reais que nos impedem de nos conectar conosco mesmos e com o mundo. É na interação com o outro, no toque, na entrega e na confiança que atingimos a nossa plenitude, nossa  transcendência corporal. 

É na transcendência que nos reconhecemos como seres completos, merecedores de amor e de cuidado. Sem essa percepção, nossa atuação na vida se empobrece e se encolhe. A transcendência permite que o homem se desconstrua e se reconheça como parte do todo, acessando aquilo que há de mais verdadeiro em si. 

Este artigo defende que o principal estado atingido pela massagem Sensitive é justamente o de transcendência. Perceber que podemos atingi-la ao sermos tocados é um recurso precioso no caminho da promoção da saúde.  

A busca pela reconexão com o corpo precisa ser trabalhada de forma ativa e, principalmente, diária. Negar nossa necessidade de contato físico, de amor e de transcendência é negar nossa própria humanidade.

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